Algo Cthuliano em Westeros – George R.R. Martin e a inspiração de Lovecraft

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Quem lê a saga A Song of Ice and Fire ou acompanha a série da HBO “A Game of Thrones” é apresentado a um mundo fantástico de intriga, aventura, guerra e magia.

 

Westeros o continente onde se passa boa parte da ação de Game of Thrones é uma terra dividida pela ambição de Famílias Nobres que ambicionam o poder representado pelo Trono de Ferro. No decorrer da intrincada trama, urdida pelo genial autor George R. R. Martin, conhecemos personagens apaixonantes: heroicos, valorosos, repulsivos, amáveis, covardes, determinados, mas acima de tudo humanos.

 

Um dos grandes méritos da Saga é tratar de personagens perfeitamente reais, ainda que habitem um mundo fictício.

 

A obra de Martin não por acaso é apontada como um novo clássico que conquista fãs e seguidores a cada dia. O autor já foi chamado até de o novo Tolkien, tamanho o impacto de sua obra na literatura de fantasia mundial. A riqueza de detalhes quando ele descreve os personagens, suas ações, seus objetivos e desejos mais íntimos, é simplesmente fantástica. As guerras, o cotidiano e a vida em Westeros também é tratada em detalhes e o leitor vai aos poucos aprendendo sobre sua conturbada história.

 

Martin sempre deixou claro que “A Game of Thrones” é uma síntese de tudo aquilo que ele leu e absorveu ao longo de sua vida e que as inspirações para compor sua terra fantástica vieram  de inúmeras fontes desde as mais óbvias como J.R.R. Tolkien, Robert Jordan, Robert Heinlein, passando por Jack Vance, Robert E. Howard e é claro H.P. Lovecraft.

O verdadeiro Lorde de Westeros

H.P. Lovecraft teve um grande impacto em mim a certa altura da minha vida. Suas estórias e contos me deixavam apavorado“. comentou Martin em uma entrevista alguns anos atrás.

 

Mais recentemente ele respondeu a uma pergunta sobre os autores que mais o inspiraram:

 

Eu sempre amei Lovecraft, quando era mais jovem eu era doido por seus contos. Ele era sem dúvida um dos meus escritores favoritos, quando eu estava no segundo grau. Eu lia tudo dele, tudo em que conseguia colocar as mãos. Ocasionalmente eu cheguei a escrever alguma coisa baseada em sua obra. Há um personagem em meu romance Wild Cards, que é assombrado por pesadelos envolvendo as criaturas do Mythos. Eu escrevi uma série de pesadelos, que são a minha melhor imitação de Lovecraft. Não tenho certeza se me sai bem, mas tentei fazer o meu melhor para capturar o tom das estórias dele”.

 
Procurando na obra mais conhecida de Martin, justamente Game of Thrones, não é difícil encontrar certos acenos a obra de Lovecraft, que o próprio autor reconheceu como sendo propositais. Uma espécie de homenagem, assim como ele rende pequenos tributos a outros autores que o influenciaram.

 

A mais clara dessas homenagens é sem dúvida a mitologia que cerca o “Deus Afogado“.

 

Essa divindade das Ilhas de Ferro é reverenciada em um tipo de religião severa e brutal, adequada ao estilo de vida austero desse povo. Na história de Game of Thrones, os Andalos, o povo que invadiu Westeros, forçou os primeiros homens a adotar as suas tradições, entre elas a crença nos Sete, mas os ândalos que tomaram as Ilhas de Ferro, acabaram ao invés disso sendo convertidos a crença local. De acordo com as crenças do povo das Ilhas, o Deus da Tempestade uma divindade maligna lançou o Deus Afogado nas profundezas e o sepultou abaixo da superfície. Ele vive desde então no fundo do mar e é para lá que migram as almas dos mortos que acreditam nele. Os homens das ilhas não temem morrer afogados em alto mar, seu mantra religioso é “O que está morto não pode morrer, mas volta a erguer-se, mais duro e mais forte.” (What is dead can never die, but rises again, harder and stronger.)

 

Em um dos rituais mais importantes, os seguidores do Deus Afogado tem a sua cabeça imersa em uma bacia de água salgada até quase a morte, e trazidos de volta no último instante como sinal de renascimento. Os devotos acreditam ainda em sacrifícios e costumavam executar seus inimigos lançando-os no mar presos a ferros.

Um cultista do Deus Afogado

George R. R. Martin revelou que “O Deus Afogado” teve como inspiração direta duas entidades marinhas do Mythos, Dagon e o próprio Cthulhu, que ele claramente homenageou ao criar um pequeno verso que sintetiza toda a crença de seus seguidores (similar ao verso: “Não está morto aquele que eternamente pode jazer, e em estranhas eras mesmo a morte pode morrer” que guia os cultistas de Cthulhu).

 

Alguns leitores apontam ecos lovecraftianos em outra divindade presente na saga de Martin. R’hllor, o Senhor da Luz e Deus da Chama e da Sombra poderia ser encarado como um tipo de Grande Antigo, venerado por sacerdotes (cultistas?) que aprendem inclusive magias e rituais, alguns deles bastante sinistros.

 

Mas nesse caso específico, Martin situou a divindade como uma espécie de Zoroastrismo, uma crença que surgiu na Pérsia. O aspecto dualista da crença, onde o deus pode ser tanto bom quanto mal (luz e sombra), foi extraído de discursos escritos pelos Cátaros, uma seita medieval europeia que foi declarada herética e aniquilada pelos cruzados Albigenses.

 

O nome R’hllor no entanto é puro Lovecraft, como reconhece o autor. Parece algo extraído de um compêndio sobre deuses e criaturas do Mythos. E não é apenas isso… os seguidores do Senhor da Luz são inimigos de uma outra crença, essa sim, totalmente baseada no Mythos, o Black Goat (a Cabra Negra) de Qohor, uma divindade obscura de fecundidade e uma das formas do “Deus de Muitas Faces”, uma entidade que assume aspectos diferentes para cada povo. É essa Black Goat a deusa da fecundidade citada pelo eunuco Varys como possuidora de dezesseis tetas que alimentam seus muitos filhotes.

 

Ora, os fãs de Lovecraft sabem muito bem que a deusa Shub-Niggurath, umas das mais importantes do Mythos, dedicada a fecundidade, é chamada exatamente de Black Goat in the Woods (A Cabra Negra da Floresta) e que ela possui inúmeros “filhos”. Da mesma forma, “Deus de Muitas Faces” está bem próximo de definir uma das características centrais de Nyarlathotep (o Deus das Máscaras, cujos avatares se espalham pelo mundo, sendo venerados em cada lugar em uma forma diferente). “Um único deus, sob muitos disfarces”.

Em nenhum dos casos, a semelhança de nome e do conceito, são mera coincidência.

 

Outro claro aceno a mitologia Lovecraftiana é passagem de Aria Stark pela terra de Braavos em “A Dança dos Dragões” quando ela tem um breve contato e fica sabendo da existência de inúmeras entidades obscuras. A Ilha dos Deuses, segundo o livro é um local onde todos os deuses são honrados pelo povo de Braavos, e muitas dessas divindades tem clara inspiração no Mythos.
E se não bastasse George R. R. Martin ser um senhor tão legal e cordial, que escreveu uma saga incrível, ele ainda é um jogador veterano de RPG há mais de 30 anos… mas essa é outra estória.

Fonte: Mundo Tentacular

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