Os Cinco Fundamentais de Lovecraft – Quais são os contos centrais na Obra do Cavalheiro de Providence?

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Artigo retirado do site Mundo Tentacular

Em se tratando da obra de H.P. Lovecraft há uma pergunta recorrente:

Quais contos são os mais importantes dentre os que Lovecraft escreveu ao longo da sua carreira e quais são considerados fundamentais?”

É uma questão absolutamente válida que merece ser respondida de maneira completa para não deixar dúvida.

Mas francamente, responder isso não é tão simples…

É muito difícil definir os parâmetros de importância para conceituar uma obra. Aquilo que causa uma reação positiva em uma pessoa, por vezes não ocasiona o mesmo efeito em outra, e vice versa. Mas como essa tende a ser uma pergunta recorrente, procurei por uma resposta, e (surpresa!) encontrei!

Alguns anos atrás, no Centenário de Nascimento de Lovecraft a Sociedade de Críticos de Literatura da Nova Inglaterra, reuniu um seleto grupo de renomados especialistas; formado por estudiosos, críticos e biógrafos que se debruçam há anos sobre a produção literária do Cavalheiro de Providence. 

E eles concluíram que EXISTE uma lista de contos essenciais. São aqueles que o leitor “deve ler” se pretende mergulhar e compreender a obra de H.P. Lovecraft.

Pessoalmente, não é a minha lista de favoritos, contudo, segundo esses medalhões, estes são os cinco contos que seriam, sem uma ordem formal, os mais importantes. Eles definem o trabalho do autor e estabelecem as bases para a mitologia por ele criada.

Sem mais delongas, vamos a eles:

1 – DAGON (“Dagon“)

Escrito no verão de 1917, logo após sua primeira história “The Tomb“, e publicado originalmente com o título “The Vagrant” em 1919. Posteriormente foi publicado na revista Weird Tales, em outubro de 1923, sendo portanto o primeiro conto profissional de Lovecraft.

 

Próximo de cometer suicídio, o protagonista, um Capitão de submarino alemão durante a Grande Guerra, descreve a sua jornada ao naufragar no Oceano Pacífico. Lá ele descobre para seu horror uma ilha que parece ter emergido das profundezas, trazendo consigo ruínas de aspecto bizarro. Explorando a ilha ele encontra um misterioso monólito, com inscrições que denotam uma civilização de homens-peixe e uma tenebrosa entidade marinha por eles venerada .
Edgar Allan Poe é o modelo principal para os primeiros contos de Lovecraft, que recorre nesse estágio de sua obra a uma narrativa gótica clássica. Como ocorre em vários trabalhos de Poe, o protagonista vaga solitário em um estado mental alterado, e a credibilidade de sua narrativa se baseia apenas na confiança e empatia estabelecida com o leitor. Mas nesse primeiro conto já são estabelecidos alguns dos temas centrais da obra de Lovecraft: a sobrevivência da civilização humana, a revelação chocante que prejudica a percepção do homem como centro do seu mundo e a existência de um horror ancestral que vai muito além da razão.

Indiscutivelmente, os melhores trabalhos de Lovecraft, aqueles que trouxeram uma contribuição original e essencial para sua carreira, foram escritos no período após seu retorno à Providence, em 1926, após dois anos conturbados em Nova York. “Dagon” é a exceção, tendo sido escrito antes dele adquirir a maturidade como autor. Mesmo assim, é o primeiro trabalho do ciclo posteriormente rotulado como “Cthulhu Mythos“. Pode-se dizer que “Dagon” representa o primeiro esforço de Lovecraft em sedimentar a base para sua mitologia particular e o ponto de partida para o gênero que ele criou: O Horror Cósmico.

2 – THE CALL OF CTHULHU (“O Chamado de Cthulhu“)

Composto entre agosto e setembro de 1926, publicado pela revista Weird Tales em fevereiro de 1928, após uma recusa inicial.

Contado como um quebra-cabeça, o conto segue os passos de um narrador que investiga a existência de uma conspiração ancestral arquitetada por um culto. No início da trama, o narrador encontra as anotações pertencentes a um tio recentemente falecido, e examinando esses arquivos descobre as atividades da mega-conspiração. Seguindo as pistas, ele desvenda a conexão entre os sonhos extraordinários de um artista problemático, a captura de um culto satânico em Nova Orleans e o traumático testemunho de um marinheiro sobre uma ilha no Pacífico.

Através de uma abordagem inovadora na concepção da fantasia de terror, a história gira a visão tradicional antropocêntrica e sobrenatural em favor de um ponto de vista externo, “cósmico”, com a representação de um universo indiferente ao destino da humanidade e incidentalmente hostil. Um realismo científico que põe em cheque a percepção das coisas, aplicado a um estilo de narrativa que acumula alusões, sinais, revelações, e atmosferas.

Entre os maiores admiradores de “O Chamado de Cthulhu estava Robert E. Howard que escreveu uma resenha elogiosa onde se lia o seguinte trecho: “Trata-se de uma obra prima, que eu tenho certeza irá se tornar uma das obras mais importantes da literatura fantástica em todos os tempos“. O estudioso da obra de Lovecraft, o novelista Peter Cannon aponta o conto como “ambicioso e complexo… uma narrativa densa e sutil em que o horror cresce gradativamente até atingir proporções épicas“.

Entre as mais importantes contribuições desse conto encontra-se o conceito de entidades que não tem uma origem sobrenatural, e sim alienígena. São criaturas de poder esmagador, verdadeiras divindades extra-terrestres ou extra-dimensionais, cuja definição é impossível definir sem comprometer a sanidade. O poder que eles exercem não é mágico, mas uma extensão ou alteração das leis naturais.

“The Call of Cthulhu” se destaca como pioneiro de uma abordagem diferenciada ao gênero de horror, define as regras de uma pseudo-mitologia e invoca as questões centrais na tradição lovecraftiana.

3 – THE COLOUR OUT OF SPACE (“A Cor que veio do espaço”)

Escrito em março de 1927 e publicado pela revista Amazing Stories, em setembro do mesmo ano. Lovecraft recebeu apenas US$ 25 pelo trabalho (algo em torno de US$ 330 em valores atuais) e ainda foi pago com enorme atraso. Depois disso, nunca mais enviou trabalhos para a Amazing Stories, apesar de “A Cor” ter sido incluída no Hall of Honor da publicação.

No conto, um meteorito cai na zona rural a oeste de Arkham, trazendo em seu interior uma coisa indefinível, uma forma de vida que é estranha a tudo o que existe na Terra, simplesmente, uma cor. Essa criatura causa mudanças medonhas no local onde se refugia, fazendo a família que lá vive sofrer uma lenta mas gradual transformação digna de pesadelos.

Este conto é definido pelo biógrafo Donald R. Burleson como “um exemplo de como criar atmosfera e um clima de estranheza em um o conto de horror“. É uma das histórias curtas mais marcantes e eficazes na obra de Lovecraft e não por acaso uma de suas favoritas. Recorrendo a imaginação do leitor, ele não define exatamente a natureza da estranha criatura que cai na Terra , tudo é deixado em aberto.

Além disso, “Cor”  é tido como o primeiro conto do período maduro de Lovecraft que remonta ao uso da ficção científica como veículo para o horror, sendo ele um dos pioneiros a conjugar ficção e horror numa mesma equação. “The Colour Out of Space” apresenta uma ameaça vinda do espaço, mas cientificamente o conto é perfeitamente plausível, com termos e elementos coletados pelo autor nos artigos sobre astronomia e Física que ele tanto admirava. Lovecraft foi um precursor ao utilizar a ciência para explicar o inexplicável ou para fazer o inexplicável soar legitimamente estranho, recorrendo a uma chancela científica.

4 – AT THE MOUNTAINS OF MADNESS (“Nas Montanhas da Loucura“)

Escrito entre fevereiro e março de 1931, a novela foi rejeitada pela Weird Tales por ter sido considerado “longa demais”. Posteriormente ela foi publicada pela revista Astounding Stories nas edições de fevereiro, março e abril de 1936.

Um dos trabalhos mais ambiciosos de Lovecraft tanto no formato quanto no conteúdo extremamente descritivo. Na época em que foi publicado, críticos afirmaram que o apuro científico tornava a narrativa demasiadamente arrastada, no entanto a novela foi um sucesso entre os leitores pulp, o que justificou várias reedições. Montanhas da Loucura abandona totalmente o cenário típico do horror gótico e situa a história em um panorama totalmente inovador, uma região inóspita e inexplorada com paisagens cobertas de gelo. Para Lovecraft, o Continente Gelado era a última fronteira do planeta e ele acompanhava fascinado os relatórios enviado por expedições que tentavam preencher os espaços ainda em branco no globo terrestre. Há indícios de que o autor era um profundo admirador da Expedição comandada pelo  Almirante Byrd que visitou a Antártida em 1928 e que ele devorava avidamente os artigos sobre essa missão.

A trama acompanha uma expedição científica da Universidade Miskatonic enviada para a Antártida. A equipe localiza uma incrível cadeia montanhosa, “mais imponente que o Himalaia” e no sopé desta, descobre galerias glaciais repletas com fósseis de seres desconhecidos pela ciência. Quando a equipe decide se dividir, algo inesperado ocorre e perde-se o contato com o grupo avançado. A equipe de resgate enviada para prestar socorro localiza o acampamento devastado e indícios de que os responsáveis pelo massacre são criaturas alienígenas. Na parte final, os sobreviventes descobrem a existência de ruínas em um platô nas montanhas e uma breve exploração deste local ancestral revela segredos que a humanidade não está pronta para conhecer.

S.T. Joshi chama Montanhas da Loucura de “Um verdadeiro clássico, que pende mais para a ficção do que para o horror, sem contudo perder o contato com elementos capazes de causar arrepios“.

Os conceitos filosóficos e estéticos defendidos pelo Cavalheiro de Providence encontram eco na história e civilização dos Antigos. Lovecraft não apenas constrói um mito baseado em alienígenas brilhantes, mas relaciona a própria existência da humanidade a esses seres, apontando-os como os responsáveis diretos pelo surgimento da raça humana. O conto inadvertidamente ajudou a popularizar o conceito dos “astronautas da antiguidade” e dos “deuses vindos do espaço”.

O laureado escritor de ficção Theodore Sturgeon definiu essa estória como “Perfeitamente Lovecraftiana” e como “uma das obras mais inventivas e lúcidas da carreira de um verdadeiro mestre“.

5 – THE SHADOW OUT OF TIME (“A Sombra fora do Tempo“)

Depois de uma composição difícil, com vários projetos fracassados entre o outubro de 1934 e fevereiro de 1935, o autor finalmente brinda os leitores com uma narrativa surpreendente. Publicada em Junho de 1936 na revista Weird Tales, este é considerado como o último grande conto de Lovecraft em um período em que sua produção literária encontrava-se em franco declínio, sobretudo por causa da sua saúde debilitada.

Nessa trama, ficção científica e terror uma vez mais se cruzam em uma narrativa fantástica abordando os pontos centrais do que veio a ser chamado Horror Cósmico.

Após um misterioso episódio de amnésia, um Professor se vê assombrado por pesadelos e lembranças surreais. Nesses sonhos, ele conhece uma civilização inumana que habitou a Terra há milhões de anos, uma raça de exploradores temporais que utiliza mentes cooptadas em diferentes eras. O horror fica por conta do ocaso dessa raça, nas mãos (ou garras) de invasores espaciais impiedosos que ainda habitam ruínas ancestrais no coração da Austrália. Explorar essas ruínas em busca das respostas é a única esperança para o protagonista, mas esse contato pode custar muito mais do que a sua sanidade.

O escritor e crítico Lin Carter chama The Shadow Out of Time de “uma das maiores realizações da ficção em todos os tempos“, citando “seu espetacular foco e a sensação acachapante de cósmica imensidão, as implicações do tempo e espaço, e uma narrativa arrebatadora de imaginação singular“. O autor Ramsey Campbell descreve essa estória como “o magna-opus de um autor à frente de seu tempo“, “inspiradora além das palavras“.

Curiosamente o próprio Lovecraft não ficou satisfeito com o resultado final do conto e enviou o script original para seu correspondente August Derleth sem sequer fazer uma cópia dele. Foi apenas a insistência de Derleth que fez com que o autor aceitasse reescrever alguns trechos e submeter uma vez mais o conto a Weird Tales para dessa vez ele ser selecionado e publicado.

The Shadow Out of Time compartilha vários pontos em comum com “At the Mountains of Madness”: ambos são relatos em primeira pessoa, escritos como óbvio alerta para as terríveis implicações de se buscar um conhecimento proibido, e ambos os contos constituem uma perfeita fusão entre ficção científica e horror. Mesmo que não tenha o pano de fundo evocativo do deserto gelado para compor a sensação de medo latente, “sombras” possui uma trama sólida que recorre a outros contos e citações para expandir o conceito central do Mythos de Cthulhu.

Bom é isso!

Esses seriam os cinco fundamentais segundo os críticos e especialistas.

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“Eu não me importo com o que os outros pensam sobre o que eu faço, mas eu me importo muito com o que eu penso sobre o que eu faço. Isso é caráter.” - Theodore Roosevelt



5 respostas para “Os Cinco Fundamentais de Lovecraft – Quais são os contos centrais na Obra do Cavalheiro de Providence?”

  1. [...] Mesmo assim, é o primeiro trabalho do ciclo posteriormente rotulado como “Cthulhu Mythos“. Pode-se dizer que “Dagon” representa o primeiro esforço de Lovecraft em sedimentar a base para sua mitologia particular e o …  [...]

  2. Alien disse:

    Eu estava procurando essa semana as obras dele para começar a ler.

    Obrigado!

    • Flavio disse:

      Caro amigo ou quem quer que queira começar a ler H.P.Lovecraft: recomendo fortemente que comece por Nas Montanhas da Loucura.

      Destes so nao li a sombra fora do tempo

  3. Victor Menna disse:

    Genial. Eu estava procurando por isto esses dias e encontro bem aqui. É uma pena que o conto 5 (A sombra fora do tempo) não esteja incluso na Antologia H.P Lovecraft, publicada aqui.